7 Pecados Mortais – INVEJA
Colocado por Vasco Catarino Soares em May 9, 2009
Vou aqui postar uma série de 7 crónicas (7 Pecados Mortais) que me foram solicitadas (2005/2006) pela, Portuguesa, Revista ClickIn (Revista Feminina).
Na altura pediram-me para não imprimir um cunho demasiado científico às crónicas. Resolvi, não só retirar a tal cientificidade, como dotar as crónicas de cunho descontraido (por vezes demais). Na época tiveram o seu sucesso.
Sem mais delongas aqui vão elas. Uma de cada vez.
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21 de ABRIL 2006
São 21 horas de um dia banal. Muito coisa foi trazida à superfície. Na manhã desse mesmo dia sai-se para a rua. Fugimos para o metro ou para o autocarro. Procuramos o automóvel que ficou arrumado num canto remoto do nosso cérebro e parece não aparecer mais. Acima de tudo vamos todos à procura de vida… ou do que acreditamos que ela seja. Encontramos gente de todas as cores, credos e feitios.
Um fulano com os dentes podres e brilhantina no cabelo assobia uma melodia popular. Dá dois pontapés numa lata que repousa no chão, inquietando o cão amarelo (amarelo pois) que lambisca as partes. Também ele à procura de qualquer coisa: o sentido da vida ou talvez uma pulga.
No outro lado da rua está um puto reguila, que troca cromos do Pokemon ao mesmo tempo que deita o olho a uma rapariga loura (são sempre louras) e lhe diz: – Ai linda! Ainda dizem que as flores não andam!
À entrada da padaria está uma velha com uma caixa de limões a fazer negócio. Ao seu lado uma mulher de um pais de leste, com ar triste e duas meninas à sua frente, a tentar trocar 6 pensos rápidos por dois limões. Vá-se lá saber para que os quer.
À porta do infantário do bairro, há uma pressa incomensurável nos olhos e gestos dos pais que entregam os seus filhos para mais um dia de educação. No coraçãozito dessas mesmas crianças há desencanto e saudade do afecto. Estamos na rua e encontramos sempre as mesmas pessoas. Encontramos sentimentos. Encontramos o pecado. Todos eles. Mas não encontramos a inveja. Não. Essa não aparece na rua, às claras. Esconde-se no mais íntimo do segredo. No interior da nossa caverna escura. A inveja é isto tudo e muito mais. Se repararmos bem vemos que nela se podem encerrar todos os outros pecados mortais. A inveja é invejosa e deseja o que é dos outros. É ávida (gula) e quer sempre mais. Mas também tem medo que lhe tirem o que amealhou (é avara) e por isso esconde-se. Por isso não pode aparecer. Todavia, outra das suas fraquezas é a vaidade, pelo que deixa escapar alguns dos seus feitos. E assim sabemos que existe; onde está e o que faz. Depois, encontramos nela um pouco de luxúria também. Porque a inveja quer ser perfeita, quer seduzir e possuir tudo. Outra das suas características, que desenvolve na sequência da anterior, é a raiva. A inveja tem raiva dos que tem o que ela deseja. Odeia tudo o que lhe mostra o que lhe falta. Por fim, o seu último pecado é o da preguiça, pois só este justifica que não construa a sua vida, que não a crie, em vez de querer roubar o que não é seu. Também há um facto curioso a respeito da inveja. Já repararam que no nosso Portugal não há invejosos? Só se ouve falar de pessoas que são invejadas e vítimas da inveja. Invejoso nunca ninguém é. Face a tudo isto só nos resta fazer uma pergunta essencial. Por que raio é que se inveja? Mas haverá alguma coisa no tal dia banal de todos nós que seja motivo de inveja? Serão os dentes podres do fulano assobiador? Será a vidinha do cão? Será o puto reguila e os piropos manhosos? Ou será a mulher de leste faminta?
Não sei…
Este foi o último pecado mortal, o que encerra esta série de crónicas. Assim me despeço.
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Fotografias cedidas por Ruben Andrade
Sobre o FOTÓGRAFO -> http://olhares.aeiou.pt/anjinho
Sobre a MODELO -> http://olhares.aeiou.pt/fj







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