A Mentira nas Relações Conjugais e com as Crianças

Colocado por em October 30, 2009

Entrevista que me foi solicitada por uma revista nacional.


1. O que pensa da mentira no seio de uma relação? Pensa que em alguns casos as mentiras podem salvar um casamento? Nesse sentido, será aceitável mentir?

No seio de uma relação, em que ambos estão comprometidos e realmente dispostos a investir, a mentira (que põe em causa a relação) é sempre algo de negativo, pois esta pode sempre vir a ser descoberta, e aí já existem 2 factores negativos: 1- Ter mentido durante x tempo. 2- O facto de se ter mentido a um dos elementos suscita sempre a dúvida quanto ao investimento e amor que se coloca na relação. Deste modo a mentira dificilmente poderá salvar um casamento. A única coisa que pode salvar é um casamento também ele de mentira. Qual a qualidade de um casamento que tem no seu seio a mentira? Não será melhor sair de um casamento quando não se tem confiança suficiente no outro para lhe contar a verdade?

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2. Em geral, quem mente mais? O homem ou a mulher?

Ambos mentem. Embora o tipo de mentira seja diferente. Os homens mentem mais a respeito de relações extraconjugais. As mulheres relativamente a questões económicas (compras, tratamentos de beleza) e relativamente à relação sexual do casal (desprazer que experimentam).

3. Qual o tipo mais comum de mentira entre os casais?

O tipo de mentira mais comum nos casais prende-se com as relações sexuais. As mulheres com a falta de prazer que sentem na relação. Os homens com a procura de outras parceiras ou de erotismo (pornografia na internet).

4. Como se lida com a mentira numa relação após saber a verdade?

A maior parte das pessoas lida com choque (1ª fase) e depois com conformismo. Por questões de comodismo e falta de confiança em si mesmo (acreditarem que é mais fácil deixar como está do que procurar melhores relacionamentos) estas pessoas acaba por aceitar (mas não realmente) estas mentiras e continuam sem grandes expectativas nas relações. Uma percentagem mais pequena das pessoas não aceitam a mentira (consoante a gravidade) e acabam as relações por esse motivo.

5. Há muita gente a ir às consultas com o motivo de superar uma mentira?

Há muita gente a procurar as consultas psicológicas por causa da mentira. Uns porque foram alvo de mentira (que põem em causa as suas relações). Outros porque mentem e não se sentem bem nesse papel.

Em última análise, o que ambos procuram é uma maior compreensão do porquê. O que levou a que as coisas acontecessem assim. E o que realmente é importante é perceber porque nos mentiram. Teremos nós feito algo que tivesse provocado essa mentira? Ou vivíamos numa relação de mentira?

6. E no âmbito do relacionamento do casal com os filhos. Acha saudável as chamadas “mentiras piedosas”?

Depende do grau da mentira piedosa. Mas por regra sempre que consigamos traduzir a verdade para palavras e formas suaves (mesmo os assuntos mais graves podem ser traduzidos para formas acessíveis às crianças) que possam ser percebidas pela criança devemos optar pela verdade. Todavia, quando essa verdade é dura devemos sempre escolher muito bem as palavras e dar suporte emocional à criança. Assim, construímos uma relação de confiança e dotamos a criança de capacidade para suportar a realidade, pois há o suporte emocional que possibilita a compensação e há um adulto de confiança que não engana e ajuda. Contar uma verdade dura (sem a traduzir) e não dar suporte à criança é altamente cruel. Quando se acha que não se vai conseguir contar a verdade aos filhos, o melhor é pedir ajuda a um profissional de psicologia.

Isto não significa que as crianças tenham que saber tudo. Em especial, no que toca à vida intima do casal. Surgiu nos últimos anos a ideia de que se devia falar da vida do casal aos filhos. Essa ideia não corresponde aos interesses da criança e não é nada saudável, deve sempre existir uma reserva de intimidade em qualquer relação, seja perante os filhos, seja perante terceiros.

7. Há muitos pais que mentem aos filhos?

Sim. É muito comum os pais (mãe e pai) mentirem aos filhos. Grande parte dessas mentiras até nem são muito graves. Mas também é verdade que as crianças sabem que lhes estão a mentir. Deste modo, as crianças também vão aprendendo a mentir, muitas vezes sem necessidade. Vão aprendendo a mentir porque o observam nos adultos e os vão imitando (toda a criança quer crescer e ser adulto).

8. Acha que a criança mais tarde ressentirá esse facto? Ou é o melhor para ela?

Não consigo imaginar muitas situações em que uma mentira possa ser melhor do que a verdade. Mas nas poucas que existem pode-se relatar o mais próximo e acessível à capacidade de compreensão da criança. E à medida que a criança for crescendo, e quando ela perguntar, contar uma versão mais próxima da verdade. A mentira absoluta e fantasiosa tem sempre um impacto negativo a longo prazo. Nem que seja criar um adulto pouco preparado para encarar a realidade. Por outro lado, uma verdade dura contada a seco, sem cuidado ou preparação também pode ter consequências trumáticas.

9. Em assuntos tabu, como a morte ou a sexualidade, os pais tendem a mentir aos filhos? Porquê?

É precisamente nestes temas que os pais tendem a mentir mais aos filhos. Em grade parte fazem-no porque não sabem como falar destas coisas. Muitas vezes também acham que a criança vai ficar muito chocada ou traumatizada. Nestes casos diríamos estar perante um ciclo vicioso. Os pais não sabem falar destes assuntos com os filhos. Os filhos não aprendem a ouvir nem a encarar estas realidades. Quando estes forem adultos também não saberão falar e estar à vontade com estes assuntos. E assim, não os podem transmitir aos seus próprios filhos.

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Este é o site Oficial de Vasco Catarino Soares. Psicólogo, Neuropsicólogo e Psicoterapeuta. O Dr. Vasco Catarino Soares é colaborador e entrevistado frequente em diversos meios de Comunicação Social e irá partilhar com todos os interessados essas suas colaborações. A sua experiência como psicoterapeuta facultou-lhe um seguro conhecimento dos mecanismos emocionais e comportamentais do ser humano. É esse conhecimento que vai aqui expor e partilhar com todos vós.

VASCO CATARINO SOARES ESCREVEU 52 ARTIGOS.

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