Arquivos Autor

Convite para a antestreia do filme “A Nova Vida do Senhor O´Horten”

Colocado por Vasco Catarino Soares em dezembro 3, 2009  |  0 Comentários

Como devem já ter percebido, por alguns artigos aqui publicados, sou apreciador de cinema. Como psicólogo recebo, por vezes, convites para visionar filmes em sessões pré-estreia, para redigir comentários sobre os mesmos. Comentários que se prenderão com os aspectos que possam ter alguma relação com a psicologia (ou se quisermos com o comportamento humano). Já aqui coloquei uma hipótese de perfil psicológico do realizador de Hostel 2, Eli Roth, a convite de Rui Tendinha – conhecido crítico de cinema da nova geração.
O convite que, agora, me fizeram (Alambique) refere-se ao filme A Nova Vida do Senhor O´Horten, do norueguês Bent Hamer. Estreia amanhã, dia 03 de Dezembro de 2009. É um filme Selecção oficial do festival de Cannes. E é bom! Tem vida!
hortenMaquinista de comboios (companhia dos caminhos de ferro Noruegueses), com 40 anos de serviço, O´Horten é um homem pacato e solitário. O tipo de homem cuja vida é equivalente a um arquivo de biblioteca – impecavelmente arrumado. Quarenta anos de organização. Horários, turnos, locais onde fica hospedado nas suas viagens de trabalho, as refeições… Tudo é metódico e regular. Fumador de cachimbo (frequenta sempre a mesma tabacaria). Impecavelmente organizado e regular. O dia da reforma é o mote do início deste filme. Neste dia (ou melhor, na noite que o precede) algo começa a mudar. Fica, então lançado o percurso do filme (que não revelo aqui).
É um filme sobre a mudança e coragem. Coragem para abdicar de 40 anos de hábitos rígidos. Coragem porque a reforma é uma fase dura. Como psicólogo sei muito bem o impacto que a reforma tem nas pessoas (questionamento sobre a própria valia, quebras depressivas, vazio angustiante, preparação para a morte desvitalizante… [um dia explico o que isto quer dizer]).
Mas aqui há uma mensagem de esperança. Sem ser lamechas é “capaz de aquecer o coração mais gelado” (David Parkinson, Empire). É uma “pequena obra-prima de humor” (Lou Lumenick, New York Post).
Neste caso, teríamos que dizer, o senhor O´Horten começou a viver depois de reformado. Senão vejam: fazer um passeio nocturno de automóvel no lugar do morto com um condutor (ainda mais velho) que acredita ter o dom de ver de olhos fechados… É ou não é começar a viver?
Da minha parte, como psicólogo, considero esta uma mensagem muito animadora. Era o que aconselharia a todos os que me perguntassem: o que devo fazer depois de me reformar? A minha resposta seria: Olhe! Faça “
A Nova Vida do Senhor O´Horten“.

.

.

Site Oficial- http://www.sonyclassics.com/ohorten

Site Alambique- http://www.alambique.pt

E foi assim que tudo começou

Colocado por Vasco Catarino Soares em novembro 24, 2009  |  0 Comentários

Carbon Based Lifeforms – Abiogensis

The beginning of times. E foi assim que tudo começou. Carbon Based Lifeforms – Abiogensis.



Opinião sobre filme Hostel2 – Notícias magazine

Colocado por Vasco Catarino Soares em novembro 13, 2009  |  1 Comentário

Hostel 2

Violência para que te quero!

hUma cena de decapitação, outra de radical canibalismo e também a famosa sequência de castração. Isto fez de Hostel2, acabado de estrear, alvo de controvérsia. Já o consideraram «Tortura pernográfica» e ao seu realizador, Eli Roth, um tarado perigoso. Falámos com este protegido de tarantino e convidámos um psicoterapeuta português a avaliar o potencial grau nefasto desta sequela. Afinal, quem tem medo do papão da violência em Hollywood?

Texto: Rui Pedro Tendinha, Cannes

Fotografia: Rico Torres

NOTÍCIAS MAGAZINE Nº 795 de 19 Agosto 2007


É uma vaga, uma moda em hollywood: filmes de terror com violência explícita e sempre com a temática da tortura como prioridade. São os chamados gornos ( junção da palavra gore com porno ) ou torture porn. A discussão já tinha estalado quando os estúdios americanos começaram a apostar neste tipo de filmes, sobretudo em 2005, o ano dos sucessos de Saw – Enigma Mortal e do primeiro Hostel. O rastilho da contestação aumentou na véspera da estreia de hostel 2 nos EUA, no passado mês de junho. Os detractores bateram forte e feio na forma como a violência começou a ser completamente explícita. A grande maioria da imprensa americana atacou o fenómeno do «vale-tudo» em violência e chamou, literalmente, «irresponsáveis» aos realizadores e produtores. O certo é que esses filmes fizeram muito, muito dinheiro nas bilheteiras. Uma nova geração de espectadores já não engole nenhuma obra de terror sem as entranhas bem à mostra ou os miolos de uma miúda bem escarrapachados em primeiro plano. Com tantos protestos, começou a pensar-se que, se houver recuo de violência nesses filmes, estaremos então perante uma certa forma de censura. Levanta-se, obviamente, a questão da liberdade de expressão artística. Em defesa desta tendência poderão estar argumentos que apontam para o direito à transgressão. O segredo do sucesso é precisamente dar a impressão ao espectador de que está a ver qualquer coisa de perigoso, de proibido. Em todos esses filmes a tónica, para além da tortura, é sem dúvida o grau elevado do sadismo dos vilões, todos eles de uma imoralidade inimaginável.

Quem parece estar a ser o principal bode expiatório disto tudo é Eli Roth, realizador vindo do cinema independente e especialista em emoções fortes. Foi ele quem criou e imaginou a demência confessa da saga Hostel. É ele quem está a ser acusado de «mente doentia» ou cineasta com tendências sádicas. Para desmontar as acusações, chegou a consentir que um grupo de psicólogos e psiquiatras o avaliasse a partir do visionamento de Hostel 2. Por muito que todos os fotogramas salpiquem sangue, os psiquiatras desmentiram qualquer distúrbio mental. A reputação de Roth acabou por não ir totalmente ao ar, mesmo depois de muitos, inclusive colegas, terem concordado que tinha ido longe demais. Quem sempre o defendeu foi Quentin Tarantino, que já o tinha ajudado no primeiro Hostel. Ambos os filmes chegam com um rótulo «Quentin Tarantino apresenta» e foi o próprio realizador de Pulp Fiction quem o escolheu para actorem À Prova de Morte, eventualmente também um filme de terror com pernas amputadas e algum banho de sangue.

Como não poderia deixar de ser, a violência no cinema, à luz dos nossos dias, tem os seus adeptos. Em 2007 já não nos assustamos com sangue à distância e são muitos os defensores deste imaginário cru. Filmes como SinCity ou o próximo Rambo usam e abusam dessa opção explícita, não sendo catalogáveis como películas de terror. Ou seja, o horror ganhou na América uma bravura mais realista e quando em Setembro chegar Planeta de Terror, de Robert Rodríguez, ficaremos a pensar se toda esta gente não anda a competir para ganhar o prémio do mais repulsivo, nojento e impressionante filme da história do cinema. Claro, para já, o que está em causa é perceber se o sadismo de Hostel 2 será, ou não, desviante ou nocivo, chamemos-lhe assim.

O filme convida-nos a entrar num clube de tortura, em que mediante uma fortuna qualquer milionário vai até uma pequena vila da Eslováquia para torturar e matar, como quiser, jovens turistas raptados. A garantia é que não são apanhados porque a organização assegura sigilo e segurança totais. Na prática, o que vemos são decapitações, uma perna a ser cortada para consumo canibalesco, um duche com o sangue de uma virgem pendurada, uma castração a um homem e uma já mítica desfiguração com motosserra. Respiramos fundo e prosseguimos. Hostel 2 tem requintes de tortura para dar e vender. No meio de tanto choque, os espectadores, entre a perplexidade e o desconforto, riem-se. Riem-se de nervosismo. Claro, o realizador defende-se. Faz figura de provocador e lembra a todo o momento que o filme está classificado para maiores de 18 anos, que só entra no cinema quem gosta do género. Quem o conhece sabe que ele é tudo menos uma pessoa violenta.

A palavra ao psicólogo

O psicoterapeuta Vasco Catarino Soares, da Clínica Insight – Psicologia, não o conhece mas depois de ter visto o filme avança com a hipótese de um retrato psicológico apenas a partir do que assistiu em Hostel 2: «Pode ser que seja uma pessoa com grande necessidade de expressar raiva ou medo, mas possuidora de uma personalidade algo narcísica (que em psicologia significa ter necessidade de reconhecimento por parte dos outros, necessidade de aparecer, de ser visto, falado. Recupero aqui uma frase de Oscar Wilde que pode esclarecer: “Falem bem de mim. Falem mal de mim. Mas não deixem de falar de mim.”). Ao ter esta necessidade de ser notado, sendo realizador no meio de centenas de realizadores, talvez tente fazer a diferença para não ficar no anonimato. Uma forma rápida e mais acessível a estes indivíduos é enveredar por conteúdos chocantes ( garantia de ser falado, nem que seja pela crítica negativa). Também são indivíduos que gostam de ir pela contracultura, rompendo com a ordem vigente, o que lhes dá a sensação de estar acima dos costumes: fazem coisas chocantes, que escandalizam os outros.»

Seja como for, o nosso convidado desconfia que este tipo de filmes hiperviolentos acabe por não ser perigoso para os espectadores. Catarino Soares lembra que este excesso de violência está a ficar banalizado pela sua própria sobreexposição. Na prática, «esta vaga de filmes sobre tortura será explicada por vivermos num mundo em que as respostas de agressividade e desprezo pelo valor da humanidade vão acontecendo com mais facilidade. Em parte, motivados pela banalização da violência e por um certo vazio de valores ou até utopias. Num mundo sobrepovoado, onde a expressão natural das vontades e sentimentos dos indivíduos é mais dificultada (pelo efeito de número, pela falta de canais de expressão acessíveis à maioria dos indivíduos), muito fácilmente se encontra na agressividade uma forma de expressão e de afirmação do “eu”. Note-se que é mais fácil destruir que construir.»

Durante a projecção, a susceptibilidade deste psicólogo não provocou pulos na cadeira. Mas em Portugal quem está de certeza a devorar o filme neste momento são os adolescentes, mesmo aqueles que não têm idade para entrar na sala. O especialista compreende esse apelo: «Também há adolescentes que se afirmam pelo o culto da contracultura. É uma forma de se evidenciarem e de se destacarem dos comuns – uma necessidade muito assentuada em alguns adolescentes. Esses poderão manifestar agrado pelo filme. Mas isso não significa que o vão reproduzir na realidade. Pode ser apenas uma expressão de oposicionismo que não passa pelo comportamento agressivo.» Avançamos também com outra hipótese: a do espectador apenas querer ter medo puro durante hora e meia. Sem filmes de terror com violência extrema lá se ia uma das derradeiras hipóteses de nos podermos «escapar».



Artigo com opinião de Vasco Soares – A Palavra em família.

Colocado por Vasco Catarino Soares em novembro 6, 2009  |  0 Comentários

Uma das entrevistas com mais conteúdo que já me fizeram.

————————————————————————–

NÃO HÁ PALAVRA MAL DITA SE NÃO FOR MAL ENTENDIDA

As palavras em família

«Já dizia a minha avó» é uma expressão que vulgarmente nos acompanha. Por este ou por aquele motivo, todos temos uma frase que guardamos na memória, seja pelo número de vezes que nos foi dita ou pelo eco que fez dentro de nós. Há expressões que utilizamos que nos serviram e servem de estímulo e outras que funcionam como um bloqueio.

Por Rita Bruno ::  Família Cristã.  Nº Junho 2007


É no seio familiar que a criança aprende e apreende as palavras e os seus vários significados e aquilo que vamos ouvindo pela vida fora pode marcar-nos profundamente. Tanto é que são inúmeras as vezes que somos chamados à atenção para medir as nossas palavras, pois uma vez ditas produzem os seus efeitos. «Uma palavra que te escapa é uma espada que te ameaça» é apenas mais uma maneira popular de nos relembrar que «pela boca morre o peixe» e que aquilo que dizemos tem efeito nos outros.

Mas afinal qual é, efectivamente, a importância das palavras e da sua utilização para o desenvolvimento de uma criança? Poderemos traumatizar os mais pequenos com aquilo que dizemos? Bastará isso para os influenciar? O que acontece, por exemplo, quando as palavras não são acompanhadas pelos actos – surtem algum efeito? E qual a importância do culto da palavra no seio familiar?

Vasco Catarino Soares, psicoterapeuta e director da Insight-Psicologia, refere que a importância da palavra reside no facto de ela ser «fundamental para o desenvolvimento infantil. A palavra veicula ideias, desejos, sentimentos, questões. Em suma, é a forma que nos permite o relacionamento uns com os outros. É no seio da família que a criança vai aprender e apreender o mundo e, dessa forma, a palavra que existe na família vai ser a que lhe vai servir de referência». Para além da palavra que é dita, Laura Pimpão, psicóloga, reforça que é muito importante o modo como é dita. «As crianças aprendem não apenas por aquilo que aqueles que lhes são significativos dizem, mas pela forma como o dizem e pela maneira de se relacionarem com elas. O que se diz, a forma como se diz e o contexto em que se diz determinam, em parte, os limites psicológicos e sociais.» E, continua, a palavra vai constituir a base das relações sociais, pois «permite a interacção do sujeito com o meio ambiente, sendo que o contacto com vários modelos e o confronto que se estabelece vai conduzir a um alargamento das perspectivas acerca da vida e dos outros».

Podemos ver que a palavra e a linguagem actuam directamente ao nível da construção do eu pessoal e social da criança, daí a sua importância. Obviamente, as palavras, não sendo acompanhadas por actos correspondentes, perdem a sua força. Vasco Soares afirma que «entre a palavra e os actos (quando se contrariam), os actos têm sempre uma maior valoração. A criança, perante o dilema de um discurso que advoga determinados comportamentos e os actos que a família exibe, vai considerar como exemplo os actos». Para quem crê na máxima de que às crianças cabe apenas obedecer a ordens sem questionar, Laura Pimpão deixa um alerta: «Fomentar a palavra, o diálogo, enfim, o pensamento e o autoconhecimento, ajuda-nos a aprender a colocarmo-nos no “lugar do outro”. Isto se a palavra se faz acompanhar, obviamente, de comportamentos sintónicos com a mensagem que a palavra pretende transmitir. A máxima “faz o que eu digo e não faças o que eu faço” parece não se aplicar a este conceito de partilha, reciprocidade, crescimento e autonomia.»

formacao_psicoterapeutas2O culto da palavra em família

Quando falamos no poder da palavra, não nos queremos referir apenas ao diálogo ou àquela «conversa de pé de orelha» entre pais e filhos quando é necessário sentar à mesa para esclarecer algum assunto, mas a tudo o que é dito, muitas vezes sem uma intenção clara. «De facto, há palavras que geram “mau-trato”, que “deitam abaixo” que “dilaceram”… Por outro lado, a prática do uso de palavras emocionais, positivas, que ajudam a construir a pessoa percepcionando-se com valor, ajuda a criar um ambiente seguro, onde a criança sinta que pode dizer o que sente, incluindo as emoções negativas (tristeza, medo, raiva…)», reforça a psicóloga.

Tomemos alguns exemplos como a repetição de ideias ou até ditados populares utilizados com frequência; ambos podem funcionar de forma positiva ou negativa. Ouvir repetidamente palavras de incentivo pode ser motivador, da mesma forma que ouvir palavras de recriminação pode ser demolidor. «Se me disserem repetidamente “és um desastre, não fazes nada bem… só me dás desgostos…”, será certamente muito diferente do que se me disserem “não está bem aquilo que fizeste, estou magoado, mas acredito que tens capacidade para fazer melhor / mudar. Estou desapontado com o teu erro, mas continuo a gostar muito de ti…”», exemplifica Laura Pimpão. Para além disso, a repetição pode funcionar como um anti-reforço, acrescenta Vasco Soares, surtindo o efeito contrário ao que se quer enfatizar. E esclarece: «Está estudado que a informação redundante pode ser cansativa e aversiva, pois transmite à criança que não confiam nas suas capacidades (Já ouvi! Já me disseste várias vezes! Não sou surdo! Não sou estúpido, percebi da primeira vez).»

Algo tão «inofensivo» como um ditado popular pode acompanhar o desenvolvimento cognitivo de uma criança, transformando-se numa verdade. «O que os ditados populares têm de positivo é facilitar a compreensão, em traços gerais, de determinado assunto (a musiquinha que os acompanha facilita a memorização). Mas o que é positivo tem igual peso negativo. A realidade e os acontecimentos relatados nos ditados populares nem sempre são tão simples como lá vêm descritos. Deste modo, uma explicação correcta desses acontecimentos é preferível a uma generalização. São as generalizações que levam à formação de estereótipos», afirma Vasco Soares. Também Laura Pimpão veicula esta perspectiva, acrescentando que o perigo dos provérbios é «serem conclusivos» e extremados na ideia de bom e mau. «Os provérbios têm endereços bem definidos: acusando, definindo, defendendo, consolando, propiciam ao ouvinte um carácter sábio, analítico e, acima de tudo, são conclusivos. É importante, pois, considerarmos que os provérbios, isoladamente e quando mal interpretados, podem também ser perigosos, induzir ao erro, distorcer situações, justificar vícios ou encorajar maus costumes. Precisamente por serem conclusivos, podem ajudar a que a criança não desenvolva a capacidade de pensar os pensamentos, como se de uma sentença se tratasse, trancando-a nas amarras da culpabilidade e da frustração, por não conseguir atingir essa conduta inacessível que só os “bons” contrastando com os “maus” conseguem.»



A Mentira nas Relações Conjugais e com as Crianças

Colocado por Vasco Catarino Soares em outubro 30, 2009  |  0 Comentários

Entrevista que me foi solicitada por uma revista nacional.


1. O que pensa da mentira no seio de uma relação? Pensa que em alguns casos as mentiras podem salvar um casamento? Nesse sentido, será aceitável mentir?

No seio de uma relação, em que ambos estão comprometidos e realmente dispostos a investir, a mentira (que põe em causa a relação) é sempre algo de negativo, pois esta pode sempre vir a ser descoberta, e aí já existem 2 factores negativos: 1- Ter mentido durante x tempo. 2- O facto de se ter mentido a um dos elementos suscita sempre a dúvida quanto ao investimento e amor que se coloca na relação. Deste modo a mentira dificilmente poderá salvar um casamento. A única coisa que pode salvar é um casamento também ele de mentira. Qual a qualidade de um casamento que tem no seu seio a mentira? Não será melhor sair de um casamento quando não se tem confiança suficiente no outro para lhe contar a verdade?

stress4

2. Em geral, quem mente mais? O homem ou a mulher?

Ambos mentem. Embora o tipo de mentira seja diferente. Os homens mentem mais a respeito de relações extraconjugais. As mulheres relativamente a questões económicas (compras, tratamentos de beleza) e relativamente à relação sexual do casal (desprazer que experimentam).

3. Qual o tipo mais comum de mentira entre os casais?

O tipo de mentira mais comum nos casais prende-se com as relações sexuais. As mulheres com a falta de prazer que sentem na relação. Os homens com a procura de outras parceiras ou de erotismo (pornografia na internet).

4. Como se lida com a mentira numa relação após saber a verdade?

A maior parte das pessoas lida com choque (1ª fase) e depois com conformismo. Por questões de comodismo e falta de confiança em si mesmo (acreditarem que é mais fácil deixar como está do que procurar melhores relacionamentos) estas pessoas acaba por aceitar (mas não realmente) estas mentiras e continuam sem grandes expectativas nas relações. Uma percentagem mais pequena das pessoas não aceitam a mentira (consoante a gravidade) e acabam as relações por esse motivo.

5. Há muita gente a ir às consultas com o motivo de superar uma mentira?

Há muita gente a procurar as consultas psicológicas por causa da mentira. Uns porque foram alvo de mentira (que põem em causa as suas relações). Outros porque mentem e não se sentem bem nesse papel.

Em última análise, o que ambos procuram é uma maior compreensão do porquê. O que levou a que as coisas acontecessem assim. E o que realmente é importante é perceber porque nos mentiram. Teremos nós feito algo que tivesse provocado essa mentira? Ou vivíamos numa relação de mentira?

6. E no âmbito do relacionamento do casal com os filhos. Acha saudável as chamadas “mentiras piedosas”?

Depende do grau da mentira piedosa. Mas por regra sempre que consigamos traduzir a verdade para palavras e formas suaves (mesmo os assuntos mais graves podem ser traduzidos para formas acessíveis às crianças) que possam ser percebidas pela criança devemos optar pela verdade. Todavia, quando essa verdade é dura devemos sempre escolher muito bem as palavras e dar suporte emocional à criança. Assim, construímos uma relação de confiança e dotamos a criança de capacidade para suportar a realidade, pois há o suporte emocional que possibilita a compensação e há um adulto de confiança que não engana e ajuda. Contar uma verdade dura (sem a traduzir) e não dar suporte à criança é altamente cruel. Quando se acha que não se vai conseguir contar a verdade aos filhos, o melhor é pedir ajuda a um profissional de psicologia.

Isto não significa que as crianças tenham que saber tudo. Em especial, no que toca à vida intima do casal. Surgiu nos últimos anos a ideia de que se devia falar da vida do casal aos filhos. Essa ideia não corresponde aos interesses da criança e não é nada saudável, deve sempre existir uma reserva de intimidade em qualquer relação, seja perante os filhos, seja perante terceiros.

7. Há muitos pais que mentem aos filhos?

Sim. É muito comum os pais (mãe e pai) mentirem aos filhos. Grande parte dessas mentiras até nem são muito graves. Mas também é verdade que as crianças sabem que lhes estão a mentir. Deste modo, as crianças também vão aprendendo a mentir, muitas vezes sem necessidade. Vão aprendendo a mentir porque o observam nos adultos e os vão imitando (toda a criança quer crescer e ser adulto).

8. Acha que a criança mais tarde ressentirá esse facto? Ou é o melhor para ela?

Não consigo imaginar muitas situações em que uma mentira possa ser melhor do que a verdade. Mas nas poucas que existem pode-se relatar o mais próximo e acessível à capacidade de compreensão da criança. E à medida que a criança for crescendo, e quando ela perguntar, contar uma versão mais próxima da verdade. A mentira absoluta e fantasiosa tem sempre um impacto negativo a longo prazo. Nem que seja criar um adulto pouco preparado para encarar a realidade. Por outro lado, uma verdade dura contada a seco, sem cuidado ou preparação também pode ter consequências trumáticas.

9. Em assuntos tabu, como a morte ou a sexualidade, os pais tendem a mentir aos filhos? Porquê?

É precisamente nestes temas que os pais tendem a mentir mais aos filhos. Em grade parte fazem-no porque não sabem como falar destas coisas. Muitas vezes também acham que a criança vai ficar muito chocada ou traumatizada. Nestes casos diríamos estar perante um ciclo vicioso. Os pais não sabem falar destes assuntos com os filhos. Os filhos não aprendem a ouvir nem a encarar estas realidades. Quando estes forem adultos também não saberão falar e estar à vontade com estes assuntos. E assim, não os podem transmitir aos seus próprios filhos.

.



« Entradas Anteriores   Novas Entradas »