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  • Falar com crianças sobre dificuldades económicas e crise

Falar com crianças sobre dificuldades económicas e crise

Maio  2016 / 1 No Comments

Entrevista a Vasco Catarino Soares, Psicólogo Clínico e Neuropsicólogo sobre como falar com Crianças sobre dificuldades económicas/crise.

 

1) Surgem-lhe casos de pais, com dificuldades económicas, com dúvidas sobre como explicar aos filhos a crise?

Não. Quando recorrem ao psicólogo (seja a consulta para os próprios ou para os filhos) as preocupações prendem-se mais com questões relativas ao bem-estar (mais falta dele), dificuldades relacionais, e problemas de comportamento e/ou aprendizagem (no caso das crianças/jovens).

Como não há o hábito (pelo menos no nosso pais) de cuidar do aspecto “educação financeira”, essa não é uma preocupação muito saliente das famílias portuguesas. E por esse motivo pura e simplesmente não têm esse tipo de conversas com os filhos. E desse modo, não é uma preocupação que seja transportada para a consulta de psicologia.

No entanto, as explicações sobre a crise…. (continua na resposta seguinte)

2) Como explicar aos filhos que o dinheiro não dá para comprar tudo o que se queria?

No entanto, devo salientar que a explicação que se deva dar sobre “a crise” (falamos da crise que nos afecta em termos globais e não da nossa crise particular) tem que respeitar o grau de entendimento da criança. De um modo geral, pode-se passar a ideia de que o “dinheiro que ganhamos é um tanto e que as coisas estão mais caras. Que esse dinheiro não dá para comprar as mesmas coisas que antes e por isso temos que gastar menos e comprar só o importante (à frente darei indicações sobre o que deve ser considerado essencial).” Não se deve entrar em explicações técnicas sobre a crise bancária, alavancagem, mercados bolsistas, impostos, etc. Isso não faz parte do “mundo infantil”. As crianças não estão sintonizadas nessas preocupações e nem devem estar (não irá acrescentar nada de valioso ao seu processo de desenvolvimento). Mais tarde lá chegarão e com os conhecimentos necessários para entenderem esse “mundo”.

3) Os pais devem esconder dos filhos que estão a atravessar dificuldades económicas ou devem partilhar o problema com as crianças/jovens?

Antes de falarmos de esconder ou revelar, devemos colocar as coisas em termos gerir informação.

Então com esta perspectiva em mente, devemos pensar se isso será benéfico para uma criança. Os meus filhos devem saber que eu estou a atravessar dificuldades financeiras? Devem saber que eu estou endividado? Que impacto isto irá ter neles? Como é claro a resposta a estas questões irá variar de acordo com a idade das crianças. Se falarmos de filhos adolescentes (finalistas de secundário, pré-universitários), como estes já têm uma melhor noção de como funcionam a sociedade e a economia, estes devem estar informados sobre as condições financeiras da família.

Mas se falamos de crianças, o exercício de lhes revelar a “dura realidade”, não fazendo esta parte das suas preocupações (típicas da infância), poderia ter um efeito assustador para a criança. Não porque entende-se o verdadeiro significado (porque provavelmente não iria compreender) mas pelo aparato que envolvia a comunicação desse facto (os pais a ter uma conversa séria, o provável ar circunspecto, o tom grave). Estas características iriam ser entendidas pela criança (qualquer coisa de grave e complicado se passa. Os meus pais estavam com um ar de drama) mas a explicação e o que isso iria significar para as suas vidas, isso provavelmente não iria ser entendido.

Há realidades para as quais uma criança não está “sintonizada” e por isso falar delas não irá surtir o efeito pedagógico que se pretende. Especialmente quando com isso só iremos trazer preocupações que não são próprias para as crianças. Não se trata de enganar, nem esconder. Trata-se de proteger para mais tarde termos adultos capazes e não pessoas que foram fragilizadas com exposição a realidades que não eram próprias, nem passíveis de serem entendidas/suportadas.

4) Que conselhos dá ao nível da gestão de dinheiro para crianças? Como ensinar as crianças a lidar com o dinheiro e a poupar?

Os bons conselhos que os pais podem dar é o de serem realistas e honestos quando estão a dar lições aos filhos (o que não acontece na maior parte das vezes). Os bons conselhos prendem-se sempre com o comprar primeiro o essencial, depois prever o quanto se vai precisar no futuro (no caso das crianças um futuro a muito curto prazo, pois não podem fazer previsões de prazos alargados), e depois, é que se pode avançar para um gasto não tão importante sob o ponto de vista do fundamental, mas importante na perspectiva do prazer e satisfação.

Os conselhos que os pais (ou outro educador) possam dar aos filhos são importantes, mas perdem a sua eficácia se não existe uma boa relação entre eles, se não se tratam de pais que sempre se preocuparam com os filhos, que os acompanharam no percurso escolar, e que tiveram bons momentos de relação. Sem isto e sem dar um exemplo de comportamento regrado de consumo, os conselhos não passam de “frases sem sentido” vistas pelos filhos como hipocrisias, e que dificilmente vão acatar.

Sim. Dar o exemplo. É a forma mais eficaz e talvez a única que realmente resulte. Depois de muito exemplo dado, pode investir-se na parte lógica ou racional: explicar o que é supérfluo e essencial. No entanto, se os pais não tem uma boa noção do que é essencial e supérfluo,como o podem transmitir aos filhos?

Respeitando a natureza do ser humano a ordem que vai do essencial para o menos essencial respeita a:

1- Manutenção das necessidades básicas de alimentação e bem estar orgânico

2- Manutenção das necessidades de protecção e reserva de intimidade, como por exemplo ter um lar onde se resguardar com condições de habitabilidade.

3- Necessidade de relacionamento interpessoal e social.

4- Necessidade de realização pessoal (seja no trabalho, seja perante si próprio).

Deste modo podemos dizer que o grau que define o mais essencial do menos essencial deverá respeitar esta ordem natural de necessidades humanas. Os gastos de dinheiro devem canalizados respeitando esta ordem, i.e., alimentação e saúde; habitação e vestuário; alguma vida social e respectivos gastos; comprar alguns objectos ou serviços que nos proporcionem realização pessoal. Só se deve passar para a ordem superior quando a anterior estiver satisfeita. Não se vai gastar dinheiro em vestuário caro (2º nível) se tem a família em casa com fome (1º nível).

Mas mais uma vez relembro que formulas para ensinar um filho a ser um bom gestor de dinheiro, achando que isso passa só pelo discurso e desprezando o próprio comportamento e a relação que se tem com os filhos, só podem ter um mau resultado.

5) O que de positivo vislumbra nesta crise económica?

Podemos sempre tentar encontrar aspectos positivos dos acontecimentos que nos são desfavoráveis. Independentemente do que se trate há sempre algumas questões a que nos podemos dedicar. E sim é disso que se trata em primeiro lugar: tirar ilações ou obter lições. Falamos de uma reflexão genérica: O que posso aprender com este acontecimento negativo? Como posso tentar que não aconteça de novo?

Bem. Neste caso, tratando-se de uma crise que, como muito se divulga, não fomos nós que a criamos, as lições que dela podemos retirar serão mais no sentido de “como devo evitar estar numa posição mais protegida relativamente às crises que não dependem do meu comportamento, que foram criadas por outras causas que não eu”.

Podemos então ver como positivo a necessidade de uma adaptação do comportamento consumista das populações. No sentido de se tornarem menos gastadores, criando poupança (aqui também podemos considerar investimento), e consequentemente, mais resistentes a crises.

Outro aspecto positivo, pode ser o de aumentar as formas criativas de criar serviços e produtos com menos meios (por força da necessidade de reduzir custos e preços), portanto, mais baratos, tornando o mundo um lugar mais ecológico (com menos desperdício de energia e matérias primas) e garantido que as pessoas mantem alguma qualidade de vida.

Este é o site Oficial de Vasco Catarino Soares. Psicólogo, Neuropsicólogo e Psicoterapeuta. O Dr. Vasco Catarino Soares é colaborador e entrevistado frequente em diversos meios de Comunicação Social e irá partilhar com todos os interessados essas suas colaborações. A sua experiência como psicoterapeuta facultou-lhe um seguro conhecimento dos mecanismos emocionais e comportamentais do ser humano. É esse conhecimento que vai aqui partilhar consigo.


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